REFLEXÃO SOBRE O BORDADO



A Provocação do Bordado!


"Para mim, uma das faces mais fortes do ato de bordar é a da provocação. Provocação que a vida, e o que dela lembramos, nos faz para ser impressa com linhas em panos. As cores respondem à provocação; mostram nossas preferências e os desvarios de cada um. Uma terra laranja, um mar vermelho, um céu roxo, uma noite de dia. Entram na roda os sentimentos: uma alegria, uma injustiça. Bordar não é, como se vê, retratar. Bordar será sempre o resultado de uma provocação da vida e do modo como nossos olhos, emoção e compreensão a veem. Não se pode racionalizar esse processo totalmente e tampouco resulta da pura intuição.

O delicado exercício de escolher panos, linhas, cores, agulhas é profundamente reflexivo. É preciso apertar os tecidos, olhá-los de perto, de longe, muitas vezes, às vezes só, às vezes com outros, até que, na mesa, fiquem descansando inumeráveis retalhos, desalinhados. Olhamos as linhas, suas cores, nuances, brilho, textura. A agulha é submetida ao teste dos dedos: são grossas, finas, curtas, longas, ásperas, lisas. Esse movimento exprime o que nos vai pela cabeça.

A criação do bordado não pressupõe maestria no desenho, nos pontos. Qualquer paninho pode se transformar numa beleza humana. O bordado provoca o bordador a pôr mais um ponto, mais uma cor, mais uma textura. A desmontar, a reordenar, a inserir elementos, a retirar. É um acontecimento inexplicável: o bordado nos provoca a parar quando está pronto ou a abandoná-lo, esquecê-lo ou retirá-lo da gaveta onde dormia. O bordado responderá sempre a uma provocação interna, responderá sempre à história que a bordadeira ou o bordador viveu – infantil, alegre, triste, revolucionária.

Sendo resultado de tantas provocações, seu destino final é o de provocar. Os olhos, as mãos, a emoção, o desejo, o pensamento dos que o tocam – e que, às vezes, correm a bordar. É fantástica a beleza humana expressa no bordado."


Olinda Evangelhista



 

Realmente a arte de bordar é rica de inspiração. Podemos modificar uma figura, um contexto, quantas vezes quisermos, até atingir o que queremos, mesmo não sendo a perfeição.


Você, Tereza, é um ícone do bordado, valorizou a arte, levando-a à academia, transcendeu quando inspirou pessoas anônimas e desesperançadas a encontrarem um caminho de cores e formas, sentindo-se capazes e inseridas num outro mundo. Aprenderam a sonhar.


Como se tudo isso fosse incompleto, acrescentou os milagres do bordado, dando-lhe o toque da espiritualidade.


Parabéns, um grande abraço e a gratidão pelos seus ensinamentos.


Valderez Maria Monte Rodrigues.

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